Semaglutida é um análogo de GLP-1 aplicado uma vez por semana, vendido no Brasil principalmente como Ozempic, aprovado para diabetes tipo 2, e Wegovy, aprovado para obesidade. As duas marcas contêm a mesma molécula em doses diferentes. Desde 2025 surgiram outras marcas com o mesmo princípio ativo, algumas produzidas por biotecnologia e outras por síntese química. Nos estudos clínicos, a dose usada para obesidade levou a uma perda média de peso entre 14,9% e 20,7%, conforme a dose e o tempo de tratamento.
O que é a semaglutida?
A semaglutida é um análogo de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), hormônio produzido no intestino que estimula a liberação de insulina, reduz a liberação de glucagon e diminui o apetite. A molécula tem modificações estruturais que aumentam sua ligação à albumina, uma proteína do sangue, e prolongam sua meia-vida. Por isso ela não é simplesmente “GLP-1 natural produzido em laboratório”: é uma versão modificada, que permanece ativa no corpo por dias e permite a aplicação uma vez por semana, por injeção subcutânea (sob a pele).
Quais marcas de semaglutida existem no Brasil?
No Brasil, a semaglutida injetável chega ao paciente por marcas registradas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que se dividem em dois grupos, conforme a forma de produção.
Produzidas por biotecnologia (Novo Nordisk e parceria Novo Nordisk/Eurofarma):
- Ozempic, comercializado desde 2018 para diabetes tipo 2, em doses de até 1 mg por semana.
- Wegovy, aprovado para obesidade, em doses de até 2,4 mg por semana. A dose de 7,2 mg foi aprovada pela Anvisa em maio de 2026, mas ainda não chegou às farmácias brasileiras.
- Extensior, fabricado pela Novo Nordisk em parceria com a Eurofarma para ampliar o acesso ao tratamento. É equivalente ao Ozempic, com doses de até 1 mg.
- Poviztra, da mesma parceria, equivalente ao Wegovy, com doses de até 2,4 mg.
Produzidas por síntese química, após o fim da patente:
- Ozivy (EMS), primeira versão sintética de semaglutida aprovada no país, liberada pela Anvisa em maio de 2026 e disponível nas farmácias desde 15 de junho de 2026.
- Semavy (Mantecorp, do grupo Hypera Pharma), também de semaglutida sintética.
As duas versões sintéticas estão aprovadas apenas para diabetes tipo 2 em adultos, com doses de até 1 mg. Até setembro de 2026, nenhuma semaglutida sintética tem aprovação no Brasil para as doses maiores usadas no tratamento da obesidade. As diferenças entre as formas de produção estão explicadas em semaglutida sintética e biológica: qual a diferença.
Existe ainda a semaglutida em comprimido, o Rybelsus, aprovado no Brasil apenas para diabetes tipo 2. Ela tem regras de uso próprias, detalhadas em Rybelsus: como funciona a semaglutida oral.
Ozempic e Wegovy são o mesmo remédio?
Ozempic e Wegovy têm o mesmo princípio ativo, a semaglutida, mas indicações e doses diferentes. O Ozempic é aprovado pela Anvisa para diabetes tipo 2, com dose máxima de 1 mg por semana. O Wegovy é aprovado para obesidade, com dose máxima comercializada de 2,4 mg por semana. O mesmo raciocínio vale para Extensior (equivalente ao Ozempic) e Poviztra (equivalente ao Wegovy).
Usar Ozempic, Extensior ou uma semaglutida sintética para emagrecer, em pessoa sem diabetes, é uso fora da indicação aprovada em bula, conhecido como uso off-label.
Como a semaglutida age no corpo?
A semaglutida atua em receptores de GLP-1 do pâncreas, do estômago e do cérebro:
- No pâncreas, aumenta a liberação de insulina quando a glicose está alta e reduz a liberação de glucagon (hormônio que eleva a glicose no sangue), o que melhora o controle glicêmico em quem tem diabetes tipo 2.
- No estômago, retarda o esvaziamento, o que prolonga a sensação de saciedade.
- No cérebro, age em áreas do hipotálamo ligadas à fome e reduz o apetite.
Esse conjunto de efeitos explica tanto a queda da glicose no diabetes quanto a perda de peso na obesidade, ainda que os mecanismos envolvidos sejam parcialmente distintos.
O que os estudos mostram sobre perda de peso?
O principal conjunto de evidências para o uso em obesidade vem dos estudos STEP, conduzidos pela Novo Nordisk, fabricante do medicamento.
| Estudo | Publicação | Dose | Duração | Perda de peso média |
|---|---|---|---|---|
| STEP 1 | New England Journal of Medicine, 2021 | 2,4 mg | 68 semanas | 14,9% do peso corporal |
| STEP UP | Apresentado no congresso da American Diabetes Association, 2025 | 2,4 mg | 72 semanas | 17,5% |
| STEP UP | Apresentado no congresso da American Diabetes Association, 2025 | 7,2 mg | 72 semanas | 20,7% |
A dose de 7,2 mg, testada no STEP UP, foi aprovada pela Anvisa em maio de 2026, mas ainda não está à venda no Brasil.
No diabetes tipo 2, os estudos da série SUSTAIN mostram redução consistente da hemoglobina glicada (HbA1c, exame que reflete a média da glicose nos últimos 2 a 3 meses), na faixa de 1 a 1,8 ponto percentual, conforme a dose e o tratamento prévio, além de perda de peso associada, um efeito considerado favorável nessa população.
Para quais indicações a semaglutida está aprovada no Brasil?
A Anvisa aprovou a semaglutida injetável para quatro situações:
- Controle glicêmico no diabetes tipo 2 (Ozempic, Extensior, Ozivy e Semavy), isoladamente ou combinada a outros medicamentos.
- Tratamento da obesidade (Wegovy e Poviztra), em adultos com índice de massa corporal (IMC, o peso dividido pela altura ao quadrado) igual ou maior que 30 kg/m², ou igual ou maior que 27 kg/m² com pelo menos uma complicação associada ao excesso de peso.
- Redução do risco cardiovascular e renal: no Ozempic, em adultos com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular ou renal; no Wegovy, em adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida [VERIFICAR texto exato das bulas atuais].
- Esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), a gordura no fígado com inflamação, antes chamada de NASH. A Anvisa aprovou o Wegovy 2,4 mg para adultos com MASH e fibrose moderada a avançada (estágios F2 e F3), com base no estudo ESSENCE. Foi a primeira medicação com essa indicação formal em bula no Brasil [VERIFICAR data da aprovação].
Qualquer uso fora dessas quatro situações, incluindo emagrecimento em pessoa sem diabetes e sem os critérios de obesidade acima, é uso off-label. A decisão de prescrever cabe ao médico, sob sua responsabilidade profissional.
O que mostram os estudos de coração e rim?
A indicação cardiovascular e renal se apoia em dois grandes estudos com semaglutida, conduzidos em populações de alto risco.
O estudo SELECT, com mais de 17 mil adultos com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes, mostrou redução de 20% nos eventos cardiovasculares maiores (infarto, AVC ou morte cardiovascular) com semaglutida em comparação com placebo. Na análise de desfechos renais do mesmo estudo, eventos renais compostos ocorreram em 1,8% do grupo semaglutida e em 2,2% do grupo placebo.
O estudo FLOW, feito em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, mostrou redução de 24% no risco de eventos renais maiores, de 18% nos eventos cardiovasculares maiores e de 20% na morte por qualquer causa, em comparação com placebo.
Com base nesses estudos, a Anvisa ampliou o registro da semaglutida para incluir a redução de risco cardiovascular e renal como indicação formal, além do controle glicêmico e da perda de peso.
Semaglutida trata a gordura no fígado?
Sim, na forma com inflamação e fibrose. A atualização de novembro de 2025 da AASLD (Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado) recomenda a semaglutida como opção de tratamento para MASH com fibrose moderada a avançada (F2 e F3).
No estudo ESSENCE, a dose de 2,4 mg por semana durante 72 semanas levou a:
- resolução da MASH sem piora da fibrose em 62,9% dos pacientes, contra 34,3% com placebo;
- melhora de pelo menos um estágio da fibrose sem piora da MASH em 36,8%, contra 22,4% com placebo.
Além do efeito direto no fígado, a semaglutida promove perda de peso e melhora a resistência à insulina e o controle metabólico, o que reduz a gordura hepática e os mecanismos ligados à progressão da doença. A recomendação reforça a avaliação da fibrose por métodos não invasivos, como elastografia, para selecionar os pacientes e acompanhar a resposta. Para entender a condição de base, veja o que é a esteatose hepática.
Quais são os efeitos colaterais e riscos da semaglutida?
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais: náusea, vômito, diarreia, prisão de ventre e dor abdominal. Costumam ser mais intensos no início do tratamento e na fase de aumento gradual da dose, e tendem a diminuir com o tempo.
Efeitos menos frequentes, mas que exigem atenção:
- Pancreatite aguda: reação rara, associada a dor abdominal intensa que não passa. Pede avaliação médica imediata.
- Doença da vesícula biliar, incluindo formação de cálculos, mais comum em quem perde peso rapidamente.
- Desidratação e piora da função dos rins, geralmente causadas por vômitos ou diarreia intensos e prolongados.
- Contraindicação em quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2), por achados em estudos com roedores que motivaram essa restrição em bula.
Nenhum desses riscos é, isoladamente, motivo para descartar o tratamento quando a indicação é adequada. Eles fazem parte da avaliação que o endocrinologista faz antes de prescrever e durante o acompanhamento. Por esse motivo, desde 2025 a Anvisa exige a retenção da receita na farmácia para a compra de semaglutida.
Semaglutida substitui o tratamento da causa?
Não. A semaglutida trata o diabetes tipo 2 e a obesidade como doenças crônicas, mas não substitui o cuidado com alimentação, atividade física, sono e acompanhamento das doenças associadas. Para entender melhor as condições de base, veja por que a obesidade é uma doença, os riscos do diabetes tipo 2 sem tratamento e o que é o pré-diabetes, estágio em que mudanças de hábito costumam ter mais impacto que qualquer medicamento.
Quando procurar o endocrinologista
Procure avaliação médica antes de iniciar semaglutida por conta própria, mesmo que o medicamento pareça acessível em algum canal informal. A indicação, a dose inicial, o ritmo de aumento e o acompanhamento dos efeitos colaterais dependem do seu quadro clínico, incluindo histórico de doenças da tireoide, da vesícula e do pâncreas, e são decididos em consulta.
Perguntas frequentes
Ozempic e Wegovy têm a mesma fórmula?
Sim, ambos contêm semaglutida. A diferença está na dose aprovada e na indicação: Ozempic para diabetes tipo 2 (até 1 mg), Wegovy para obesidade (até 2,4 mg, com a dose de 7,2 mg aprovada, mas ainda não comercializada).
Quanto tempo leva para ver o efeito na perda de peso?
Nos estudos STEP, a perda de peso mais expressiva ocorreu ao longo de 68 a 72 semanas de uso contínuo, com aumento gradual da dose nas primeiras semanas.
Já existe semaglutida mais barata no Brasil?
Sim. Desde 2026 há versões sintéticas, o Ozivy (EMS) e o Semavy (Mantecorp), aprovadas para diabetes tipo 2 com doses de até 1 mg. Há também o Extensior e o Poviztra, produzidos por biotecnologia na parceria entre Novo Nordisk e Eurofarma. Nenhuma versão sintética está aprovada para obesidade até o momento.
O peso volta depois de parar o tratamento?
Estudos com a molécula mostram que boa parte do peso perdido tende a voltar quando o tratamento é interrompido sem manutenção das mudanças de alimentação e de atividade física. Isso reforça a importância de um plano de acompanhamento contínuo, e não só da medicação.
Semaglutida serve para quem não tem diabetes nem obesidade?
Não há indicação aprovada nesse caso. Fora do diabetes tipo 2, todas as indicações da semaglutida exigem obesidade ou sobrepeso com doença associada. O medicamento não é indicado para pessoas com peso normal, mesmo que tenham risco cardiovascular ou doença no fígado.
Referências
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Bulas de Ozempic e Wegovy (semaglutida). Disponível no Bulário Eletrônico da Anvisa.
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity (STEP 1). N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002.
- Resultados do estudo STEP UP, apresentados no congresso da American Diabetes Association (ADA), 2025.
- Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes (SELECT). N Engl J Med. 2023;389(24):2221-2232.
- Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al. Effects of semaglutide on chronic kidney disease in patients with type 2 diabetes (FLOW). N Engl J Med. 2024;391(2):109-121.
- Bansal MB, Patton H, Morgan TR, et al. Semaglutide therapy for metabolic dysfunction-associated steatohepatitis: November 2025 updates to AASLD Practice Guidance. Hepatology. 2026;83(5):1326-1340. doi:10.1097/HEP.0000000000001608
Gostou deste artigo? Compartilhe ou agende uma avaliação:
Vivendo Clínica de Endocrinologia em Botafogo