Pré-diabetes: valores de referência, tabela e como reverter - Vivendo Clínica

Pré-diabetes: valores de referência, tabela e como reverter

Publicado em 19 de outubro de 2026 por Corpo Clínico

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Semáforo com os valores de referência da glicemia de jejum e da hemoglobina glicada: normal, pré-diabetes e diabetes

Pré-diabetes é quando a glicose no sangue está acima do normal, mas ainda abaixo do valor que define diabetes. Pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), equivale a glicemia de jejum de 100 a 125 mg/dL ou hemoglobina glicada de 5,7% a 6,4%. Raramente dá sintoma, e é a fase em que mudar hábitos mais ajuda a evitar o diabetes tipo 2.

O que é pré-diabetes?

Pré-diabetes é uma alteração do metabolismo da glicose (o açúcar que o corpo usa como energia). O nome técnico é hiperglicemia intermediária: o corpo já tem dificuldade para manter a glicose no nível normal, mas ainda não chegou ao ponto do diabetes.

Na maioria das pessoas, a causa é a resistência à insulina (quando o hormônio que coloca a glicose dentro das células passa a funcionar com menos eficiência). O pâncreas compensa produzindo mais insulina por algum tempo. Quando essa compensação deixa de ser suficiente, a glicose sobe.

A mensagem do texto original deste blog, de 2018, continua valendo: o pré-diabetes pode evoluir para diabetes. O que mudou foi a forma de medir, com um exame novo na diretriz, e o conhecimento sobre o quanto essa evolução pode ser evitada.

Quais são os valores de referência do pré-diabetes?

Os valores abaixo são da diretriz da SBD, no capítulo de diagnóstico atualizado em 2024. Valem para adultos fora da gestação.

ExameNormalPré-diabetesDiabetes
Glicemia de jejummenor que 100 mg/dL100 a 125 mg/dL126 mg/dL ou mais
Hemoglobina glicada (HbA1c)menor que 5,7%5,7% a 6,4%6,5% ou mais
TTGO, glicemia de 1 horamenor que 155 mg/dL155 a 208 mg/dL209 mg/dL ou mais
TTGO, glicemia de 2 horasmenor que 140 mg/dL140 a 199 mg/dL200 mg/dL ou mais

Como ler os exames:

  • Glicemia de jejum (nível de glicose no sangue após pelo menos 8 horas sem comer) mostra a glicose naquele momento.
  • Hemoglobina glicada (exame que reflete a média da glicose nos últimos 2 a 3 meses) não exige jejum e sofre menos com a variação do dia a dia.
  • TTGO (teste de tolerância oral à glicose, conhecido como curva glicêmica) mede como o corpo lida com uma quantidade padronizada de glicose tomada em jejum.

Um único exame alterado não fecha o diagnóstico de diabetes: a diretriz pede confirmação com um segundo exame, a não ser que haja sintomas claros com glicose muito alta. O mesmo cuidado vale para o pré-diabetes. Um resultado de fronteira costuma ser repetido ou complementado antes de qualquer conclusão.

O que é o TTGO de 1 hora e por que ele entrou na diretriz?

O TTGO de 1 hora é a curva glicêmica com a coleta de sangue feita 60 minutos depois de tomar a solução de glicose, em vez de 120 minutos. A SBD passou a aceitar esse exame em 2024, seguindo uma proposta da Federação Internacional de Diabetes (IDF).

Os pontos de corte são 155 mg/dL para pré-diabetes e 209 mg/dL para diabetes. Segundo a diretriz, o valor de 155 mg/dL mostrou bom equilíbrio para prever o diabetes tipo 2 em populações de origens diversas.

Na prática, o exame é mais curto e identifica mais cedo quem já tem dificuldade para lidar com a glicose. A diretriz recomenda o TTGO de 1 hora principalmente para quem já tem pré-diabetes pela glicemia de jejum ou pela hemoglobina glicada, para descobrir um diabetes que ainda não apareceu nos outros exames ou para estimar o risco futuro. A decisão de pedir esse exame, e qual versão da curva usar, é feita em consulta.

Pré-diabetes tem sintomas?

Na maioria das vezes, não. O pré-diabetes é descoberto em exame de rotina. Por isso o rastreamento é tão importante.

Alguns sinais no corpo chamam a atenção para a resistência à insulina, sem serem sintomas do pré-diabetes em si:

  • acantose nigricans (manchas escuras e aveludadas na nuca, nas axilas ou nas virilhas);
  • aumento da circunferência abdominal;
  • ganho de peso concentrado na barriga.

Sede excessiva, urina em grande quantidade, visão embaçada e perda de peso sem explicação não são típicos do pré-diabetes. Esses sintomas sugerem glicose bem mais alta e pedem avaliação médica rápida.

Quem deve fazer exame para pré-diabetes?

A SBD recomenda o rastreamento do diabetes tipo 2 e do pré-diabetes em:

  1. Todos os adultos a partir de 35 anos, mesmo sem fator de risco.
  2. Adultos com menos de 35 anos com sobrepeso ou obesidade e pelo menos um fator de risco adicional.
  3. Mulheres que tiveram diabetes na gestação.
  4. Pessoas que já tiveram pré-diabetes em exame anterior.

Os fatores de risco considerados pela diretriz incluem:

  • pai, mãe ou irmãos com diabetes tipo 2;
  • pressão alta;
  • doença cardiovascular;
  • colesterol HDL baixo ou triglicérides altos;
  • síndrome dos ovários policísticos;
  • acantose nigricans;
  • sedentarismo;
  • diabetes gestacional.

Os primeiros exames são a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada. Com resultados normais e risco baixo, o rastreamento é repetido a cada três anos. Quem tem pré-diabetes ou vários fatores de risco deve repetir os exames uma vez por ano.

Se você recebeu um exame alterado e quer entender o próximo passo, a equipe da Vivendo Clínica pode avaliar o seu caso.

Quantas pessoas têm pré-diabetes?

Muitas. Segundo o Atlas de Diabetes da IDF, 11ª edição, publicado em 2025, cerca de 635 milhões de adultos entre 20 e 79 anos tinham tolerância à glicose diminuída em 2024 (uma das formas de pré-diabetes). Isso equivale a cerca de 12% dos adultos do mundo, ou um em cada oito.

O mesmo Atlas estima que 589 milhões de adultos viviam com diabetes em 2024, cerca de um em cada nove. Mais de quatro em cada dez não sabiam do diagnóstico. Boa parte dessas pessoas passou anos com pré-diabetes sem saber.

O pré-diabetes vira diabetes?

Pode virar, mas não é um caminho obrigatório. O pré-diabetes é um alerta de risco aumentado, não uma sentença.

No Diabetes Prevention Program (DPP), estudo americano publicado em 2002 no New England Journal of Medicine, 3.234 adultos com glicose alterada foram acompanhados por cerca de 2,8 anos, em média. No grupo que recebeu só orientação padrão (placebo), surgiram 11 casos novos de diabetes a cada 100 pessoas por ano. Esse número mostra o tamanho do risco sem intervenção.

O mesmo estudo mostrou que o risco cai bastante quando a pessoa muda hábitos de forma estruturada, como explicado a seguir.

Dá para reverter o pré-diabetes?

Em muitas pessoas, sim: os exames podem voltar à faixa normal ou ficar estáveis por anos. A evidência mais forte vem do DPP.

No estudo, o programa de mudança de estilo de vida tinha duas metas: perder pelo menos 7% do peso corporal e fazer pelo menos 150 minutos de atividade física por semana. Em média, entre os participantes, esse programa reduziu em 58% o surgimento de diabetes em comparação com o placebo. O grupo que recebeu metformina (um medicamento usado no tratamento do diabetes) teve redução de 31%.

No acompanhamento de dez anos, o efeito do programa de estilo de vida continuou presente, mesmo com parte do peso recuperada. Esses números são médias de um estudo e não garantem o resultado de cada pessoa.

Medidas práticas que seguem a mesma lógica do estudo:

  1. Some 150 minutos de atividade física por semana, por exemplo 30 minutos de caminhada em cinco dias.
  2. Inclua exercícios de força duas vezes por semana, se não houver contraindicação.
  3. Troque bebidas açucaradas, incluindo sucos, por água.
  4. Monte o prato com metade de verduras e legumes e prefira grãos integrais.
  5. Durma bem e investigue ronco alto ou pausas na respiração durante o sono.
  6. Repita os exames no prazo combinado com o médico.

A meta de peso, o tipo de exercício e a necessidade de medicamento variam de pessoa para pessoa. Em alguns casos, o médico pode indicar tratamento medicamentoso, sempre como decisão individual feita em consulta.

O pré-diabetes já afeta outros órgãos?

Pode afetar. A glicose levemente alta, somada à resistência à insulina, costuma andar junto com pressão alta, triglicérides altos, HDL baixo e gordura no abdômen. Quando esses fatores aparecem juntos, o quadro recebe o nome de síndrome metabólica, que aumenta o risco de infarto e AVC.

O pré-diabetes também é comum em quem tem esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado). Medir a circunferência abdominal ajuda a estimar a gordura que fica entre os órgãos e está ligada a esses riscos.

Por isso, a consulta não olha só para a glicose. Ela avalia o conjunto, para reduzir o risco do coração, do fígado e dos rins, e não apenas o de diabetes. As complicações do diabetes já instalado estão em diabetes: quais os riscos.

Quando procurar o endocrinologista

  • Glicemia de jejum de 100 mg/dL ou mais, ou hemoglobina glicada de 5,7% ou mais, em qualquer exame.
  • Diabetes na gestação, mesmo que a glicose tenha voltado ao normal depois do parto.
  • Familiares próximos com diabetes tipo 2, somados a excesso de peso, pressão alta ou colesterol alterado.
  • Manchas escuras e aveludadas na nuca ou nas axilas.
  • Procure atendimento no mesmo dia se tiver sede intensa, urina em excesso, visão embaçada e perda de peso sem explicação, porque esses sinais sugerem glicose muito alta.

Cada resultado é avaliado junto com a sua história, o seu peso, a sua pressão e os outros exames.

A consulta com o endocrinologista é o momento de avaliar esses resultados em conjunto com a sua história e definir o acompanhamento.

Perguntas frequentes sobre pré-diabetes

Glicemia de jejum de 100 mg/dL já é pré-diabetes?

Pela diretriz da SBD, glicemia de jejum de 100 mg/dL já entra na faixa de pré-diabetes, que vai até 125 mg/dL. O resultado costuma ser confirmado com outro exame, como a hemoglobina glicada.

Pré-diabetes tem cura?

O pré-diabetes pode voltar à faixa normal, principalmente com perda de peso e atividade física regular. Como o risco continua existindo, quem já teve pré-diabetes deve repetir os exames uma vez por ano.

Preciso tomar medicamento se tenho pré-diabetes?

Na maioria das vezes, o primeiro passo é a mudança de hábitos. Em alguns casos o médico pode indicar medicamento, de acordo com o risco de cada pessoa. Não use medicamento para diabetes por conta própria.

O TTGO de 1 hora substitui o de 2 horas?

A diretriz da SBD aceita os dois. O de 1 hora é mais curto e é recomendado principalmente para quem já tem pré-diabetes pela glicemia de jejum ou pela hemoglobina glicada. Qual usar é decidido em consulta.

Quem é magro pode ter pré-diabetes?

Pode. O excesso de peso aumenta o risco, mas idade, histórico familiar, diabetes na gestação e sedentarismo também contam. Por isso a SBD recomenda o rastreamento para todos a partir de 35 anos.

Referências

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