Tirzepatida: como age, o que os estudos mostram e para quem está aprovada no Brasil - Vivendo Clínica

Tirzepatida: como age, o que os estudos mostram e para quem está aprovada no Brasil

Publicado em 27 de setembro de 2026 por Corpo Clínico

Voltar para os Artigos
Mulher medindo a cintura com uma fita métrica
Imagem: Petr Kratochvil, CC0, via Wikimedia Commons

Tirzepatida é um medicamento injetável de aplicação semanal que age em dois receptores hormonais ao mesmo tempo, o de GLP-1 e o de GIP, e por isso é chamada de agonista duplo. No Brasil, até setembro de 2026, ela está aprovada pela Anvisa para quatro situações: diabetes tipo 2 em adultos, controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade, apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade e diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes a partir de 10 anos. No estudo SURMOUNT-1, adultos com obesidade e sem diabetes perderam, em média, entre 15% e 20,9% do peso em 72 semanas, conforme a dose, contra 3,1% no grupo placebo.

O que é a tirzepatida?

A tirzepatida é uma molécula que imita a ação de dois hormônios produzidos no intestino depois das refeições:

  • GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1): estimula a liberação de insulina quando a glicose está alta, reduz o glucagon (hormônio que eleva a glicose), retarda o esvaziamento do estômago e diminui o apetite. É o mesmo alvo da semaglutida.
  • GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose): também estimula a liberação de insulina e participa do controle da glicose. O papel exato do GIP na redução do apetite e do peso ainda está sendo estudado.

Segundo a bula aprovada pela Anvisa, o efeito no diabetes tipo 2 vem do aumento da liberação de insulina, da melhora da sensibilidade à insulina, da redução do glucagon e do atraso do esvaziamento gástrico. No controle do peso, o medicamento atua regulando o apetite e reduzindo a ingestão de alimentos.

Quais versões de tirzepatida existem no Brasil?

A tirzepatida é vendida no Brasil sob a marca Mounjaro, da Eli Lilly, em canetas de uso único para aplicação subcutânea (sob a pele) uma vez por semana. As apresentações registradas têm 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg, 10 mg, 12,5 mg e 15 mg. O registro na Anvisa foi concedido em setembro de 2023, e o medicamento começou a ser vendido nas farmácias em maio de 2025.

Até setembro de 2026, é a única marca de tirzepatida registrada na Anvisa, sem versão genérica ou similar registrada no país [VERIFICAR na consulta de registro da Anvisa].

Para quais indicações a tirzepatida está aprovada no Brasil?

A Anvisa aprovou a tirzepatida para quatro indicações:

  1. Diabetes tipo 2 em adultos, para melhorar o controle da glicose junto com dieta e exercícios. Aprovada em setembro de 2023.
  2. Controle crônico do peso em adultos, junto com dieta de baixa caloria e aumento de atividade física, para quem tem IMC (índice de massa corporal) igual ou maior que 30 kg/m², ou igual ou maior que 27 kg/m² com pelo menos uma doença relacionada ao peso, como hipertensão, colesterol alto, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Aprovada em junho de 2025.
  3. Apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade. Aprovada em outubro de 2025.
  4. Diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes a partir de 10 anos. Aprovada em abril de 2026, com base no estudo SURPASS-PEDS.

No diabetes tipo 2 e no controle do peso em adultos, a bula prevê dose de manutenção entre 5 mg e 15 mg por semana, definida pelo médico conforme a resposta e a tolerância.

Fora desses critérios, o uso é considerado off-label (fora da bula). É o caso de adolescentes com obesidade sem diabetes tipo 2 ou de adultos com IMC abaixo de 27 kg/m². O uso off-label não é proibido, mas é uma decisão e uma responsabilidade de quem prescreve, e não tem a mesma base de evidência das indicações aprovadas.

O que os estudos mostram?

Os principais estudos da tirzepatida foram conduzidos pela Eli Lilly, fabricante do medicamento, e publicados no New England Journal of Medicine.

EstudoPopulaçãoComparaçãoDuraçãoResultado principal
SURMOUNT-1 (2022)Adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade, sem diabetesTirzepatida 5, 10 ou 15 mg × placebo72 semanasPerda média de 15% a 20,9% do peso, conforme a dose, contra 3,1% com placebo
SURPASS-2 (2021)1.879 adultos com diabetes tipo 2 em uso de metforminaTirzepatida 5, 10 ou 15 mg × semaglutida 1 mg40 semanasRedução da HbA1c de 2,01 a 2,30 pontos percentuais com tirzepatida, contra 1,86 com semaglutida
SURMOUNT-5 (2025)751 adultos com obesidade, sem diabetes, nos EUA e em Porto RicoTirzepatida 10 ou 15 mg × semaglutida 1,7 ou 2,4 mg72 semanasPerda média de 20,2% do peso com tirzepatida, contra 13,7% com semaglutida

A HbA1c (hemoglobina glicada) é o exame que reflete a média da glicose nos últimos 2 a 3 meses. No SURPASS-2, a perda de peso também foi maior com tirzepatida: a diferença em relação à semaglutida foi de 1,9 kg na dose de 5 mg, 3,6 kg na de 10 mg e 5,5 kg na de 15 mg.

Como a tirzepatida se compara à semaglutida?

A tirzepatida levou a mais perda de peso que a semaglutida no SURMOUNT-5, o primeiro estudo randomizado a comparar as duas moléculas diretamente em pessoas com obesidade e sem diabetes. Em média, entre os participantes, a perda foi de 22,8 kg com tirzepatida e 15 kg com semaglutida, e a redução da circunferência abdominal foi de 18,4 cm contra 13 cm. Deixaram o tratamento por efeitos adversos 6,1% dos participantes com tirzepatida e 8% com semaglutida.

Esse resultado não faz da tirzepatida a melhor opção para todos. O SURMOUNT-5 foi aberto (os participantes sabiam qual medicamento usavam) e excluiu pessoas com diabetes. A escolha entre as duas depende de fatores individuais: indicação aprovada para o seu caso, doenças associadas, resposta a tratamentos anteriores, efeitos colaterais e acompanhamento possível. Essa decisão é feita em consulta.

Como se usa a tirzepatida?

A bula orienta alguns cuidados que evitam erro de aplicação:

  • Uma vez por semana, no mesmo dia, em qualquer horário, com ou sem refeição.
  • Aplicação sob a pele do abdome ou da coxa. A parte de trás do braço só deve ser usada quando outra pessoa aplica. Alterne o local a cada semana.
  • O início é sempre com a dose mais baixa, que sobe aos poucos, com intervalo mínimo de 4 semanas entre um aumento e outro. O ritmo é definido pelo médico.
  • Dose esquecida: aplique assim que lembrar, se tiverem passado até 4 dias. Depois disso, pule a dose e aplique a próxima no dia de costume.
  • Troca do dia da semana: é possível, desde que o intervalo entre duas doses seja de pelo menos 3 dias.
  • Quem usa insulina deve aplicar as duas em injeções separadas, em locais diferentes, sem misturar.
  • Conservação: na geladeira, entre 2 °C e 8 °C, sem congelar. Fora da geladeira, abaixo de 30 °C, a caneta dura até 21 dias.
  • Anticoncepcional oral: mulheres com obesidade ou sobrepeso devem associar um método de barreira, como preservativo, ou trocar para um método não oral nas 4 semanas após o início e nas 4 semanas após cada aumento de dose.

No controle do peso, a bula prevê reavaliar o tratamento se a perda for menor que 5% do peso inicial em até 6 meses depois de atingir a maior dose tolerada.

Quais são os efeitos colaterais e riscos da tirzepatida?

Os efeitos colaterais mais frequentes da tirzepatida são gastrointestinais. Náusea e diarreia aparecem em mais de 10% dos pacientes, e no tratamento do peso vômito e prisão de ventre também são muito comuns. Esses efeitos costumam ser leves a moderados, são mais frequentes quando a dose aumenta e diminuem com o tempo. Vômito e diarreia podem causar desidratação e piorar a função dos rins, por isso a bula recomenda aumentar a ingestão de líquidos.

Riscos menos frequentes, mas que exigem atenção:

  • Pancreatite aguda (inflamação do pâncreas): dor abdominal forte e persistente pede avaliação médica imediata e suspensão do medicamento.
  • Doença da vesícula biliar, como cálculos e inflamação da vesícula.
  • Hipoglicemia (glicose baixa) quando a tirzepatida é usada com insulina ou sulfonilureias. Nesses casos, o médico pode reduzir a dose desses outros medicamentos.
  • Broncoaspiração em anestesia: como o estômago esvazia mais devagar, avise o médico e o anestesista antes de qualquer procedimento com anestesia geral ou sedação profunda.
  • Retinopatia diabética: o medicamento não foi estudado em quem tem a forma grave da doença.
  • Alterações de humor: comunique ao médico o surgimento ou a piora de depressão ou pensamentos suicidas.

A tirzepatida não deve ser usada por quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2), nem por quem tem alergia aos componentes da fórmula. Também não deve ser usada para perder peso na gravidez. Quem planeja engravidar deve suspender o medicamento pelo menos 1 mês antes.

Produtos de tirzepatida sem registro são seguros?

Não. Canetas de tirzepatida trazidas de outros países ou vendidas pela internet sem registro na Anvisa não têm garantia de identidade, dose, pureza ou conservação correta. Quem considera usar tirzepatida deve passar por avaliação médica e usar apenas o medicamento registrado, comprado com receita.

O que a tirzepatida não resolve?

A tirzepatida trata o diabetes tipo 2 e a obesidade como doenças crônicas, mas não substitui o cuidado com alimentação, atividade física, sono e acompanhamento das doenças associadas. As indicações de diabetes tipo 2 e de controle do peso preveem, na bula, o uso junto com dieta e atividade física. Para entender melhor as condições de base, veja os riscos do diabetes tipo 2, por que a obesidade é uma doença e o que é a apneia do sono.

Quando procurar o endocrinologista

Procure avaliação se você tem diabetes tipo 2 sem controle adequado, obesidade, sobrepeso com doenças associadas ou apneia do sono, e quer saber se a tirzepatida é indicada no seu caso. Se você já usa o medicamento, procure atendimento com urgência em caso de dor abdominal forte e persistente, vômitos que impedem a ingestão de líquidos, sinais de alergia grave (inchaço no rosto, falta de ar) ou nódulo no pescoço, rouquidão persistente ou dificuldade para engolir.

Perguntas frequentes

A tirzepatida é aprovada para emagrecer no Brasil?

Sim. Desde junho de 2025, a Anvisa aprova a tirzepatida para controle crônico do peso em adultos com IMC a partir de 30 kg/m², ou a partir de 27 kg/m² com pelo menos uma doença relacionada ao peso. O uso deve ser associado a dieta de baixa caloria e atividade física.

Quem não deve usar tirzepatida?

A tirzepatida não deve ser usada por pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou NEM2, por quem tem alergia à fórmula e por gestantes para perda de peso. Também não há indicação para pessoas com peso normal, mesmo que tenham risco cardiovascular ou metabólico, nem para adolescentes com obesidade sem diabetes tipo 2.

A tirzepatida é mais forte que a semaglutida?

No SURMOUNT-5, a tirzepatida levou a mais perda de peso que a semaglutida: em média, 20,2% contra 13,7% em 72 semanas, entre adultos com obesidade e sem diabetes. Isso não significa que seja a melhor escolha para todo paciente. A decisão depende da indicação, das doenças associadas e da tolerância de cada pessoa.

Quanto tempo leva para ver resultado?

Os estudos mediram os resultados principais depois de 40 semanas (SURPASS-2, diabetes) e 72 semanas (SURMOUNT-1 e SURMOUNT-5, peso), com aumento gradual da dose no início. A bula prevê reavaliar o tratamento do peso se a perda for menor que 5% em até 6 meses depois de atingida a maior dose tolerada.

Tirzepatida e semaglutida podem ser usadas juntas?

Não. As duas agem no receptor de GLP-1, e não há indicação para uso combinado.

Referências

Gostou deste artigo? Compartilhe ou agende uma avaliação:

Vivendo Clínica de Endocrinologia em Botafogo

Falar com Especialista